Capítulo 01 – Um dia qualquer #sqn

Hoje é o pior dia da minha vida e tenho certeza que qualquer um vai concordar comigo assim que eu contar tudo o que aconteceu. É sério, nem tô fazendo drama! A maioria dos adultos nos critica dizendo que esses problemas são apenas uma “fase”, mas não têm ideia de quantas vezes carregamos o universo nas costas porque não podemos contar com eles quando mais precisamos, acham que estamos apenas fazendo birra.

Pra começar acordei atrasada pra ir ao colégio, mas reconheço que foi minha culpa ter deixado pra última hora o trabalho de ciências que valia nota. Aí, para ajudar, eu acabei me distraindo com as mensagens das minhas amigas e depois vendo um monte de baboseiras nas redes sociais e quando me dei conta já eram quatro horas da manhã.

Por causa disso levei uma baita bronca logo cedo da minha mãe e com toda a razão. Eu entendo que isso pode fazer mal pra minha saúde e que ela só chama a minha atenção porque quer o melhor pra mim. Mas, apesar das primeiras impressões, acredite: eu sou uma garota bem responsável e é a primeira vez que isso acontece comigo.

Arrumei então meu material, troquei de roupa e peguei minha caneca com café e por causa da pressa acabei pisando sem querer no rabo da Nana, minha gata, daí com o susto derramei tudo na minha roupa. Por sorte Amanda ainda estava em casa e disse que me levaria para a escola, pois sabia que eu não chegaria a tempo e que para entrar na segunda aula a escola exige um responsável para assinar a entrada atrasada.

Normalmente vou sozinha, pego o metrô e depois um ônibus para ir à escola. Ela é bem grande, tem três blocos e fica na esquina, mas não se destaca muito por causa dos prédios que tem por perto. Na verdade, há outras escolas mais próximas da minha casa, porém eu não quis me mudar, pois minhas melhores amigas desde a pré-escola foram pra lá e eu não queria ficar longe delas. Estou no nono ano e estudo na turma A desde o sexto.

Talvez você esteja se perguntando se eu vou na escola apenas pelas amigas, no entanto não é bem assim. Não é que eu não goste de estudar, na verdade, modéstia à parte os meus professores dizem para minha mãe que eu sou uma excelente aluna durante as reuniões. O fato é que eu não me dou bem com a maioria das pessoas que frequentam a escola. Sério! Tem gente que consegue me tirar a paciência e sem fazer muitos esforços para isso…

Se ser uma boa aluna já é difícil por causa do bullying, imagine sendo um pouco diferente da maioria… É irritante aguentar tantas provocações. Começa pelo fato de que sou ruiva natural, tenho o cabelo alaranjado e por isso sempre ganhei um monte de apelidos como: cenourinha, pimentinha, cabelos de fogo, água de salsicha, ferrugem, laranjinha, cabeça de caqui, tomatinho, palito de fósforo, bituca de cigarro, pica-pau, Chapolim e até mesmo Feriado (só porque é vermelho no calendário!).

Tá, você pode achar que eu tô exagerando só porque sou chamada assim todos os dias, mas aguenta porque tem mais uma coisinha que ainda não contei: o mundo conspira contra mim por ser canhota. Na minha escola as carteiras são daquelas que só tem o apoio de braço em um dos lados e como na minha sala só tem uma carteira para canhoto eu surto toda vez que tenho que ficar procurando porque a turma do outro período muda ela de lugar quase todos os dias, já virou um ritual; é a primeira coisa que eu faço quando entro na classe e até alguns professores me ajudam na busca. Então tudo fica tranquilo quando eu acho a carteira, só que não…

É literalmente doloroso copiar a tarefa quando a espiral fica machucando meu braço, e isso, sem contar a sujeira que fica na minha mão quando eu escrevo. Isso vale tanto para a caneta quanto a lápis. Outro dia a professora de matemática nos deu uma lista de exercícios para fazer em casa e quando eu terminei a tarefa minha mãe riu de mim dizendo que eu estava parecendo uma estátua viva, igual aquelas de rua. E no trabalho de Artes, então… Ah, como eu passo raiva quando tenho que recortar algo e a desgraçada da tesoura fica mastigando o papel.

Chegando à escola, tive que esperar no pátio para entrar na segunda aula que era de ciências. Quando deu a troca eu bati na porta e adivinhem o que aconteceu? Isso mesmo, o professor não queria deixar eu entrar! Eu fiquei tão nervosa que comecei a chorar na frente dele, é a primeira vez na vida que entro atrasada, sempre faço tudo na aula dele e agora ele faz isso comigo? Não é justo. Dou meia volta e vou pra sala da direção reclamar, entretanto na metade do caminho sou barrada pela inspetora que me pede para explicar o que aconteceu. Depois de me ouvir ela fala que ainda não chegou ninguém da direção, nem da vice direção, nem da coordenação e nem da mediação. E me pergunta se eu quero que ela vá comigo até a sala para que o professor me deixe entrar e eu acabo cedendo.

Após ela conversar com o professor e com muito custo convencê-lo a me deixar entrar, sento no meu lugar e já vem outra bomba!

— Você perdeu a prova de História na primeira aula. – comenta Thalia, uma de minhas amigas.

— Como assim?

— Ele falou que era prova surpresa e quem perdeu ia ter que fazer um outro trabalho para compensar depois.

— Aff, viu… Que sacanagem!

Após fazer a chamada o professor Osvaldo pergunta quem fez o trabalho, então toda sorridente eu levanto a mão.

— Mais alguém?

Olho ao meu redor e mais ninguém levantou a mão, nem minhas amigas.

Ele vem até mim e recolhe meu trabalho.

— Parabéns! Queria que todo mundo fosse assim.

Sinto o olhar de todos me fuzilando, com certeza querem acabar comigo!

— Ah professor, por favor, deixa a gente entregar amanhã! – começam alguns que nunca entregam nada no prazo.

— Bom, acho que não tem jeito… Certo, só vou pegar até amanhã e tem que estar caprichado!

Protesto, manifestando minha indignação:

— Ah não, professor, isso não é justo. Então pelo menos vai tirar ponto de quem não entregar no prazo, né?

— Vai depender do trabalho estar bem feito ou não.

Não acredito que fiquei me matando pra entregar no prazo e agora ele prorroga. Hoje tá uma maravilha!

Algumas aulas se passam e pelo menos vou poder conversar com meu crush para me distrair um pouco. Quer saber, melhor, já me decidi: hoje vou me declarar para ele! Se eu tiver coragem… Talvez se eu escrever uma carta… Ah, não… No que é que eu tô pensando? Meus pais nem me deixam namorar!

Quer saber? Não tô nem aí, vou assim mesmo! Assim que der o sinal eu entrego a carta para ele. Ou era nisso que eu tinha pensado até que ver o Rafael beijando uma menina. Mas não uma menina qualquer, era a Mariane, uma garota que tem a fama de já ter saído com mais da metade dos garotos da escola. Tudo bem ele querer ficar com alguém, afinal meus pais são super protetores e acham que eu sou muito nova e eu não curto ficar com alguém tendo que esconder. Mas tinha que ser justo com ela?

Após perder o recreio, descubro que a professora de Português faltou e ficamos duas aulas com um professor substituto extremamente chato. E pra ajudar não consigo para de pensar naquele ser… O Rafael estuda no primeiro ano e sempre foi muito legal comigo, vivia fazendo graça, tinha os mesmos amigos que eu, curtia as mesmas músicas, séries. E agora só tinha olhos para aquela sem vergonha. Quero ir embora! Por que a hora não passa logo?

Dá o sinal pra gente ir embora e então começa a chover. Saio correndo para não me molhar muito e quando chego ao outro lado da rua noto que o celular não está no meu bolso. Pergunto desesperada para minhas amigas se alguma delas viu meu celular e quando olho pra trás vejo ele no meio da rua. Quando tento voltar pra buscá-lo antes que alguém pegue… Um carro passa por cima dele!

Não acredito que isso pode estar acontecendo, é muito azar pra uma pessoa só. A bruxa deve estar solta, só pode!

Recolho o que sobrou do celular, mas tenho certeza que é perca total. Tá certo eu ele já era meio velhinho, mas a maioria das minhas coisas estavam salvas nele. Talvez o chip seja única coisa que dê pra salvar, mas a sorte não parece estar do meu lado hoje. Chorei durante todo o caminho de volta pra casa no ônibus. Me separo de minhas amigas que em vão tentaram me consolar até eu pegar o metrô.

Ao sair do metrô, olho para o céu e peço:

— Universo, pode parar de conspirar contra mim? Por favor, eu queria ter uma chance para mudar de vida!

Finalmente chego em casa e vejo um caminhão em frente à minha casa e alguns homens entrando e saindo dela.

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