Capítulo 02 – Vida que segue #yolo

Entrei correndo e perguntei o que estava acontecendo, então dona Amanda me deu “A Notícia”:

— Filha, me ajude a arrumar as coisas para colocar no caminhão, nós vamos nos mudar!

— Como assim “nos mudar”? Eu não tô entendendo nada! Tem bandidos atrás da gente? O papai ganhou na loteria e eu não tô sabendo?

— Filha, você sabe que faz algum tempo que estou sem trabalhar e que seu pai também estava numa empresa há alguns anos numa vaga diferente daquilo que se formou. A gente fez vários concursos e ambos fomos chamados.

— Mas a gente não ia mudar só no mês que vem?

— Não filha, eu falei que depois da chamada do concurso ser publicada no jornal a gente tem o prazo de um mês para levar os documentos se não quisermos perder essa oportunidade e que a parte mais difícil estava sendo encontrar uma casa para morar.

— Entendi, então o papai achou uma casa. Mas tem que ser hoje? Por que isso do nada?

— É porque havia outras pessoas interessadas na casa e o dono disse que alugaria com quem fechasse negócio primeiro. Então seu pai fechou o contrato. Por sorte ele também alugar a nossa casa para uma pessoa conhecida que já virá na segunda-feira. Eu sei que deve ser difícil, mas é para o nosso próprio bem.

— Como isso pode ser para o nosso bem? Eu nem tive tempo de me despedir das minhas amigas. Mãe hoje é o pior dia da minha vida! Meu celular quebrou, eu perdi uma prova porque cheguei atrasada, descobri que todo meu esforço pra entregar o trabalho no prazo foi em vão, o menino que eu gosto tá saindo com outa menina… Por que isso tá acontecendo comigo?

Minha mãe coloca as caixas que estava segurando no chão e me abraça enquanto eu começo a chorar.

— Amor, não tenho tempo para explicar mais coisas, pois daqui a pouco a gente já está de saída. Seu pai e eu conversamos muito sobre isso e pra gente também foi difícil tomar essa decisão. Mas durante o caminho a gente conversa o quanto você quiser, prometo que vou te ouvir.

— Tá mãe, acho que não tem nada que eu possa fazer sobre isso… Mas se for para fazer vocês dois ficarem felizes, tudo bem.

Amanda deixa cair algumas lágrimas e sorri enquanto leva a caixa com parte da mudança até o caminhão.

Subo a escada e vou para o meu quarto e descubro que mamãe deixou quase tudo separado em caixas. Roupas, livros, tudo. Olho perdidamente pela janela, talvez pela última vez sem saber para onde vamos.

Assim que termino de arrumar as minhas coisas, levo-as para baixo e logo que colocamos tudo no caminhão Amanda pede para que eu entre no carro, dizendo que já passou na escola para buscar os documentos para minha transferência. Ainda estou confusa e muito triste ao mesmo tempo porque ela e o papai não me contaram antes sobre a mudança. Não vou conseguir me despedir de ninguém nem abraçar meus amigos e minhas amigas. Tem um monte de gente que eu nem tenho o telefone e todos os lugares que eu combinei de ir com o pessoal…

Em voz baixa e desanimada eu pergunto:

— Pra onde é que a gente vai mesmo?

— Castilho.

— E onde fica isso?

— Hum… É na divisa entre São Paulo e Mato Grosso, fica a uns seiscentos e cinquenta quilômetros mais ou menos.

— E isso demora quanto tempo?

— Pelos meus planos umas oito horas e meia e a gente só vai fazer três paradas.

— Por que a gente não podia sair amanhã?

— Porque na segunda eu começo a trabalhar e é melhor a gente ficar com o final de semana livre para terminar de arrumar as coisas e poder descansar um pouco, aliás o seu pai já está indo na frente com o outro carro.

Fico com um pouco de raiva porque ele não estava junto da mamãe para me contar a notícia, mas deixo passar dessa vez porque imagino que ele deve estar muito cansado já que ele trabalhou a noite toda. Sérgio (meu pai) trabalhou anos no almoxarifado de uma empresa que fabrica peças de carros e ele era o vice-líder. Ele sempre me contou que tinha o sonho de ser professor de música, ele toca violão e piano. Já a Amanda (sim, ela é minha mãe) é formada em Serviço Social e trabalhou alguns anos na prefeitura depois que se formou, mas quando eu tinha cinco anos fiquei muito doente na creche que eu ficava. Tive uma pneumonia muito forte e fiquei três meses internada, então ela e o papai acharam melhor que ela se afastasse do trabalho para cuidar de mim e quando eu ficasse mais mocinha e melhorasse ela voltaria a trabalhar. Com o tempo eu fiquei bem, o problema é que ela nunca mais conseguiu emprego depois disso.

Há dois anos ela e o papai começaram a fazer vários concursos juntos em outras cidades e até em outros estados. E aqui estou eu, conversando com minha mãe para que ela consiga ficar acordada até o final da viagem. De acordo com os planos dela chegaremos às quatro da madrugada, no lugar onde “Judas perdeu as meias”.

Após tantas horas de viagem, finalmente chegamos ao lugar: mal entramos na cidade e às três da madrugada já estávamos na nova casa. Cheguei morrendo de sono, e assim que minha mãe disse que as camas já estavam prontas e fui dormir. Finalmente o dia acabou, estava tão cansada que capotei do jeito que eu estava mesmo, nem troquei de roupa.

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