Capítulo 03 – Lar doce lar? #hsh

Acordo assustada com uma sensação estranha na minha boca quando percebo que a minha gata tinha subido na cama e estava me lambendo!

— Nana! Sua gata má! Você é muito má, viu?

Nana é a coisa mais fofa do mundo: uma Ragdoll caramelo. Todos os dias quando chego da escola ela já vem ronronando e esfregando o corpo na minha perna e começa a mexer as patinhas da frente ou a empurrar as orelhas contra a cabeça. Ela é bem caseira, não costuma ficar fugindo como outros gatos e diferente de mim ela parece já se sentir bem confortável coma nova casa.

Me sento na cama e fico olhando tudo a minha volta. Mesmo no meu próprio quarto, não consegui dormir direito, e acho o mesmo vale para Amanda e Sérgio que já estavam na mesa tomando o café quando desci à cozinha.

Amanda me disse que o papai vai trabalhar numa cidade vizinha, que ironicamente fica mais perto do que quando ele trabalhava numa empresa na mesma cidade!

Ela, só começará a trabalhar na segunda-feira e por isso me deixa faltar hoje da escola porque ela ainda vai fazer a transferência e comprar o uniforme da escola, no entanto ela me diz que a condição é eu a ajude a arrumar toda a mudança.

A nova casa é bem mais bonita do que eu esperava, apesar de ser um pouco menor que a antiga. Ela tem uma sala, cozinha, banheiro e lavanderia em baixo, com um quintal bem grande. Em cima tem mais um banheiro e dois quartos. Parece ser um pouco antiga, mas tem vários detalhes, mesmo sendo bem simples.

Depois de levar o dia inteiro para arrumar tudo, Amanda e eu resolvemos andar um pouco pela cidade para conhecê-la melhor. Para minha surpresa, tinha muita coisa perto de casa: mercado, farmácia, algumas empresas e duas escolas. Então perguntei se a gente podia ir ao centro. Meu primeiro choque: Amanda riu de mim e disse que já estávamos no centro! Ela me explicou que a maior parte da cidade era rural e por isso não havia tantas ruas ali. Ótimo, era tudo o que eu precisava, de uma cidade que fica no meio do nada!

Olho para Amanda e arrisco fazer outra pergunta:

— Por favor, diz que a gente vai ter internet?

— Sim filha, mas eles pediram um prazo de quinze dias para ligar. Por sorte é a mesma operadora que a gente tinha lá então só precisei pedir a transferência por mudança de endereço.

— Quinze dias? Ah mãe… É muito tempo! Como eu vou falar com minhas amigas? E se os professores pedirem algum trabalho?

— Não tem o que fazer filha, temos que esperar.

Se alguém me perguntasse sobre meu relacionamento com Amanda eu certamente diria que ela é uma excelente dona de casa, uma esposa amorosa e dedicada, mas que tem prazer e ver a filha passar vergonha. Eu parei de escrever diários por causa dela quando certo dia voltei da escola e a peguei no flagra lendo no meu quarto tudo o que eu tinha escrito no diário. Não é à toa que ela sabia quem eram os garotos que eu gostava e falava o nome deles quando chegava a hora do “com quem será?” nos meus aniversários.

Sei que para algumas pessoas isso não é nada, mas não é nem metade dos vexames que ela me fez passar. Nunca esquecerei quando aos onze eu “virei mocinha” e ela fez questão de ligar para o meu pai e para várias amigas delas para contar.

Quando voltamos vejo o carro do papai na garagem entro correndo e escuto ele tocando seu violão na sala. Ele para assim que me vê:

— Oi filhota, tudo bem?

Corro abraçá-lo.

— Tudo. Já estava com saudades. Como foi seu dia?

— Foi maravilhoso, o pessoal da escola me recebeu muito bem. Diferente da nossa cidade que só de me lembrar do trânsito que eu enfrentava todos os dias… Eu não quero isso pra ninguém. É pra isso que a gente se mudou, para ter mais tranquilidade.

— E como está sendo o trabalho?

— Como eu trouxe tudo certinho, pude me apresentar às crianças, elas parecem ter amado a aula de música.

— Amando a aula música ou a fazer barulho?

— Bom, por enquanto é barulho, mas todo mundo começa assim. Lembra que você também ficava batendo as panelas da mamãe?

— Tá, não precisa me lembrar dessa parte, pai…

— Quer tocar um pouco comigo? Faz tempo que não ensaiamos juntos.

— Tá legal, só vou tomar um banho primeiro porque tinha ido conhecer a cidade com a mamãe. Ah, e acho que a minha guitarra deve estar desafinada…

— Traz ela aqui que eu acerto pra você, logo depois que eu terminar de ler as respostas de algumas perguntas que fiz para os alunos.

— Já no primeiro dia dando lição para eles? Misericórdia!

— Foram apenas algumas perguntas para conhecer eles melhor.

— Sei, te conheço…

Vou ao chuveiro e durante o banho me perco nos meus pensamentos. Começo a lembrar das amigas que deixei, minha escola e até daquele traste do Rafael. É tudo tão estranho que nem parece verdade que nos mudamos.

Meus pensamentos são interrompidos pela água que de repente fica gelada nas minhas costas. Dou um grito que faz meus pais virem correndo ver o que aconteceu. Amanda bate na porta:

— Filha, o que aconteceu?

— Me desculpe, eu levei um susto com o chuveiro. A água ficou gelada de repente, acho que ele pifou.

Do banheiro escuto as gargalhadas do papai. Que ódio! Amanda suspira aliviada e continua:

— Ainda bem. Você me assustou. Se precisar pode usar o outro banheiro.

— Não precisa, só estava terminado de lava o cabelo. Mas, mesmo assim, obrigada.

Papai me ensinou a tocar violão desde pequena e quando completei dez anos eu pedi para ele uma guitarra. Não me importava qual seria a marca contanto que ela fosse amarela. Ao contrário do papai eu não sou tão apaixonada assim pela música, porém eu nunca disse isso pra ele para não deixá-lo chateado.

De vez em quando arranhava alguns acordes porque sempre achei legal saber tocar, mas por causa da minha timidez nunca tive coragem de apresentar nos eventos culturais quando as professoras pediam, diferente de alguns garotos que se exibiam por saber umas quatro notas musicais.

Assim que volto vejo ele tomando o maior cuidado para afinar. De repente escuto um estalo. A corda mais fina arrebenta e acerta com tudo o rosto dele deixando um vergão na bochecha.

— Pai, tá tudo bem?

Ele começa a ter um ataque de riso. Pega uma corda da mochila dele, troca a corda, arruma tudo e continua como se nada tivesse acontecido.

— Faz tempo que você não afina ela, não é? Eu tive que trocar todas as cordas.

— Bem, você sabe, eu… Estava me focando nos estudos pai!

— Eu sei, você sempre me deu orgulho amor. Bom, pronto. Ainda se lembra daquela música?

— Claro, você sempre me pede para tocá-la com você. É a que você escreveu pra Amanda.

E assim passou o dia, ficamos tocando e cantado sem ver o tempo passar.

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