Capítulo 05 – Patinho feio. #nofilter

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— Pessoal, fiquem atentos na chamada! Número um Ana, número dois Beatriz…

Chegando no final da chamada todos ficaram quietos de repente.

— Lavínea!

— Presente!

Melissa, que está sentada atrás de mim, fala bem baixinho no meu ouvido:

— Então esse é o seu nome… Espero que a gente se dê bem, faz pouco tempo que me mudei pra cá também…

— Ah é… E o que tá achando?

— É bem diferente, mas é legal, eu acho que você vai gostar.

Após ter feito a chamada, Félix coloca a data na lousa e pede para Melissa e um menino (acho que era Luís) buscarem os livros e enquanto os dois não voltam ele começa:

— Turma, abram o caderno. Hoje é dia de quê?

— Prova de Redação! (Uma meia dúzia de alunos responde)

Ah, não! Sério mesmo? No meu primeiro dia? Na primeira aula de cara? Eu sou muito sortuda mesmo! Obrigada universo por mostrar o quanto me ama! Era exatamente o que eu precisava, uma chance de mostrar pra sala toda que eu sou nerd pra já começarem a zoar comigo! Valeu mesmo. Mas ele é professor de português? Não parece…

O professor deixa algumas anotações na lousa: “Em folha separada, com nome, número e turma”, “Olhem se não tem nada escrito do outro lado antes de tirar a folha”, “caprichem na letra porque eu não fiz curso de farmácia para entender receita médica”, “o texto deverá ser dissertativo-argumentativo, expliquem o assunto defendendo seu ponto de vista”, “dêem um título ao texto”, “o texto deve ter mínimo dezoito linhas”.

Melissa e o outro menino voltam com os livros e entregam para todos alunos.

— Abram na página duzentos e setenta e cinco e escolham um dos três temas da sequência de propostas de redação!

Abro o livro na página, mas não antes de virar para trás e provocar a Melissa que acaba de sentar no lugar:

— E aí, você tá ficando com o Luis?

Ela olha meio vermelha pra minha cara e responde:

— Com o Luigi? Para! Não tem nada a ver sua tonta!

Começamos as rir alto demais e o professor nos encara olhando feio.

— Desculpa professor, a gente não vai fazer de novo! Pode continuar, por favor.

Vejo os temas no livro: “Inclusão de pessoas com necessidades especiais”, “Redes sociais como propagadoras de notícias” e “O meio ambiente e a sustentabilidade no Brasil”. Tá difícil!

Félix começa a explicar que para desenvolver o tema na redação há quatro áreas principais para se escrever qualquer assunto e que a maioria dos textos combina com pelo menos dois. A primeira área é a Cultura e está relacionada aos costumes que as pessoas perderam ou ganharam por causa do tema, a segunda é a Política e tem a ver com a existência ou inexistência de regras sobre o assunto, a terceira é a área científica, que são os avanços e as descobertas tecnológicas, históricas ou científicas e por último a área Social, como o problema afeta a mim e as pessoas a minha volta e quais outros problemas estão ligados ao assunto.

Esse professor… Me fazendo ter que usar os neurônios já cedo! Quem é que consegue vir para a escola numa segunda-feira de manhã tão animado assim? E ironicamente não vejo ninguém reclamando. Qual é a bruxaria desse cara? Será que o pessoal dessa escola é tão diferente assim da minha outra escola?

Ele anda pela sala tirando as dúvidas de cada aluno. Passam vinte minutos e ainda não comecei, pois não consegui escolher o tema. Inclusão. Vai ser esse mesmo. Começo a escrever minha redação e tento explicar sobre a dificuldade de mobilidade das pessoas com deficiências no ambiente escolar. Fico presa no título e o melhor que consigo pensar é “A acessibilidade de pessoas com necessidades especiais nas escolas”.

Pergunto pra minha nova amiga que aula que vem depois. Após me esforçar, consigo escrever umas vinte linhas, mas acho que ainda não está bom, porém tenho medo de não dar tempo. Ela me diz que são duas de Português e depois vêm Ciências. Percebo que ela escreveu um pouco menos que eu, mas o texto parece estar mais caprichado. O professor percebe minha preocupação, vem até mim e diz para eu ficar tranquila, pois ele deixará as duas aulas para a redação. Acaba a aula e apesar do sufoco, eu consegui terminar a redação a tempo.

Durante a troca de aula, Melissa tenta me ajudar apresentando alguns dos colegas de classe. Algumas meninas vêm até mim.

— Qual é o seu nome mesmo?

— Lavínea Stephanie. E vocês?

— De onde você veio?

— De São Paulo, morava no bairro Bela Vista.

— Bela Vista?

— Perto da Consolação, da Liberdade…

— Ah… (aparentemente nenhum deles conhece, então acho melhor não ficar detalhando muito).

Luigi, o menino de aparelho que foi buscar os livros com a Melissa, fala pra ela não esquecer de me adicionar no grupo da sala e vai conversar com Hudson.

As meninas voltam ao lugar depois de falar um pouco com a Melissa uma professora entra. Aline segue com a aula de Ciências, explicando sobre transformações químicas e reações das misturas. Na sequência vêm Natália com a aula de Artes. O tempo passa bem rápido, logo toca o sinal e vamos para o intervalo.

— É, mas não esqueça que a gente tem que entregar o relatório na coordenação. Lavínea, a gente já volta.

—Tá ok.

Melissa, é a aluna exemplar da sala junto ao Luigi. Descubro então que os dois são representantes de classe e por sinal se dão muito bem.

Ta aí algo que eu sempre achei legal, mas nunca consegui ser: representante de classe. Aparentemente, também é preciso ser popular para conseguir. Será que algum dia eu conseguirei me destacar? Provar que sou boa em alguma coisa? As vezes tenho um pouco de inveja dessas pessoas…

Richard vem para conversar e parece que a poeira abaixou por enquanto. Também notei durante a aula que Richard sabe escrever, embora pareça ter um pouco de dificuldade e para minha raiva ele é destro, só estava fazendo graça mesmo. Hudson permanece um mistério; ele é completamente o oposto do Richard ele parece ter muita facilidade, mas acho que não gosta de estudar.

— E aí pirralha, o que tá achando da escola?

— Parece boa. Mas quem raios você acha que é pra me chamar de pirralha?

— Eu falo assim com todo mundo, nada de tratamento especial, nem pra novatos. E pra falar a verdade acho que estou sendo mais honesto que a maioria… Exceto o Hudson, ele também é do tipo que fala sem se importar com que os outros vão pensar então nessa parte ele tem meu respeito.

— Ah, entendi vocês brigam porque são amiguinhos, né?

—Não, eu não sou amigo daquele idiota! (diz áspero)

— Por que você sentou em uma cadeira de canhota?

— Sério?

— Não, tô brincando. Só tinha aquela carteira e outra toda zoada. Na verdade, eu tenho uma irmã que também é canhota então eu percebi algumas coisas em comum, tipo, eu vi que você usou a esquerda pra abrir a mochila e tirar o caderno…

— Tá. É… Vou nessa, que tenho que falar com uns caras aí.

Melissa e Luigi voltam rindo. Questiono os dois:

— Que que vocês tão de risadinha aí?

— Parece que você já chegou abalando os corações!

— Sua boba!

— Tô só brincando! É só o troco por hoje cedo.

— O que aconteceu hoje cedo? (Luigi pergunta pra nós duas).

— Nada, ela perguntou se a gente tava ficando.

— Deus me livre. Tá doida, é?

— É que ela não percebeu que você…

— Ei! Não fala!

Agora eu fiquei curiosa!

— Melissa, fala! Ele o quê?

— Desculpa, eu não posso falar… Pelo menos não ainda. Mas uma hora a gente te conta.

— Tá, você vai ficar me devendo essa e eu vou te cobrar

Toca novamente o sinal e voltamos para a sala. Aula dupla de História com o professor Heleno. E advinha? Ele passa trabalho para entregar na semana que vem! Uma pesquisa sobre filmes que falam sobre a segunda guerra mundial, para elaborar a resenha de pelo menos dois deles.

— Lavínea, você ainda não me passou o seu número pra eu te colocar no grupo da sala!

— Desculpe é que eu tô sem celular, ele quebrou e eu ainda não comprei outro…

— Tá mais não esquece de passar, assim que você comprar.

— Anota o seu número aqui no meu caderno que eu te mando mensagem assim que eu comprar um.

— Tá, vou escrever aqui. Acaba a aula e nos despedimos. Hora de voltar para casa.

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