Capítulo 06 – Eu penso, logo existo. #foco

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Vejo o carro na frente do portão de casa, Amanda já chegou. Acho que veio para almoçar comigo.

— Cheguei!

Ela está no celular conversando com alguém, mas interrompe a conversa para me responder:

— Beijos! Depois a gente se fala… Oi filha, tudo bem? A comida já está pronta. Eu já almocei e vou voltar para o trabalho em meia hora.

— Tá bom, vou trocar de roupa primeiro. O que tem hoje?

— Seu prato favorito!

— Sério! Obrigada, você é a melhor mãe do mundo! (Uhul, hoje tem lasanha!)

— Como foi na escola?

— Acho que mais ou menos. Conversei com algumas pessoas, tem alguns professores legais… E você no trabalho?

— Foi bem tranquilo, tô amando! Assim que eu voltar eu conto todos os detalhes.

— E que horas você volta?

— Umas seis e meia.

— E o papai?

— Ele vai almoçar por lá mesmo. Falou que só volta mais tarde, depois das aulas.

— Mãe… Sobre a internet? Não tem como instalarem antes? É que tipo, já tem trabalho da escola pra fazer…

— Você já olhou se não pode usar na escola fora do horário de aula? Se não der certo tem uma Lan house perto do meu trabalho. Ah, também tem uma biblioteca.

— Lan house? Biblioteca? Hum… Tô vendo que vai ser mais difícil do que eu esperava…

— Filha, por favor entenda que acabamos de nos mudar…

—Tá mãe. Tá bom…Pro favor, será que vai dar pra eu comprar um celular em breve? É que assim… Meu aniversário tá chegando… E tem os grupos de recados da turma da escola… Tem algumas amigas de São Paulo com quem eu queria trocar mensagem…

—Vamos ver. Não prometo nada porque ainda estamos com várias contas por causa da mudança. A noite eu converso com seu pai. E daí a gente vê certinho… Meu Deus! Já tá na hora de voltar pro trabalho. Filha te amo, até mais tarde. Você vai bem até a escola ou a biblioteca, né?

—Sim, mãe, pode ficar sossegada.

— Ah, você também pode ir pesquisando os preços de celular nas lojas, olhar não paga nada…

— Boa ideia. Gostei.

— Tchau! (Minha mãe me beija e vai para o trabalho).

Após trocar de roupa e almoçar resolvo ir a tal da lan house perto do trabalho da Amanda, ela deixou um pouco de dinheiro caso eu precisasse. É um lugar pequeno, uma sala com no máximo uns dez computadores. Vejo um garoto que parece ter a mesma idade que eu no balcão.

— Oi, eu preciso fazer um trabalho de…

— Qual é o nome de usuário?

— Oi?

— Nome de usuário.

— Não sei é a primeira vez que eu venho aqui…

— Ah, tá. A gente faz um cadastro rapidinho.

— Tá, o que precisa?

— Nome, RG e endereço.

— Eu acabei de me mudar não decorei o endereço. É avenida… Ai, não consigo lembrar… É…

— Não tem problema, quando você vier de novo a gente coloca.

— Tá, quanto é para usar a internet?

— Três reais a primeira hora e depois um real para cada hora a mais.

— Quantas horas você acha que demora pra eu baixar dois filmes?

O garoto coça a cabeça, olha para o lado e responde baixinho, meio sem graça:

— A internet aqui é um pouco lenta, acho que compensa mais você ver se não tem na locadora da rua de trás.

— Ah, tá bom obrigada.

Não acredito que perdi todo esse tempo pra nada! Mas pelo ele foi honesto e até me deu uma dica. Será que eu deveria ter perguntado o nome dele?

Chego a locadora, e pergunto pra moça do balcão se tem algum filme sobre a segunda guerra mundial.

— Qual você está procurando? Tem vários…

— Eu não conheço nenhum…

— Moça, vê pra mim A Lista de Schindler e A Queda!

Levo um susto com a voz de um menino que aparece do nada atrás de mim. Olho pra trás. É o menino da minha sala.

— Oi Lui… (Qual era o nome dele mesmo?)

— Luigi.

— Desculpa.

— Não esquenta eu já tô acostumado. Tem um monte de gente que erra eu nome.

—Então… Você pode me dar uma dica de algum filme pro trabalho de História?

— Claro, depende que tipo de filme você quer, se é algo de ação, de drama, de documentário…

— Algo que não seja chato.

— Tá, você pode começar com O resgate do soldado Ryan e O Túmulo dos Vagalumes.

— Valeu. Muito obrigada mesmo. Eu tava perdida aqui. Esqueci de pesquisar os nomes dos filmes antes…

— De nada, se precisar me chama, eu gosto de ajudar… É Luigi, hein!

Ele vai embora após pagar a moça que traz os filmes dele e os meus.

Chega a minha vez e a moça pergunta:

— A ficha tá no nome de quem?

— Ainda não tenho ficha moça eu me mudei esses dias…

— A gente faz na hora, tá com o RG e endereço? (Não acredito, tudo de novo).

Volto para casa, preparo um lanchinho e coloco o primeiro filme. Quanto mais cedo começo, mais rápido eu termino.

Não sou muito fã de filmes de ação, mas até que o filme foi bom. Faço algumas anotações enquanto as ideias estão frescas. Assisto o segundo “Túmulo dos Vagalumes”. É um desenho sobre dois irmãos e é muito triste. Quando percebo já estou chorando e nesse exato momento chega minha mãe que acaba voltar do trabalho, bate na porta do quarto:

— Pode entrar, mãe.

— Que foi filha, o que aconteceu? Por que você tá chorando?

— Nada mãe, é só um filme que eu tava assistindo pra fazer um trabalho da escola.

— E o professor que indicou esse filme?

— Não, era pra gente escolher dois filmes sobre segunda guerra e fazer um resumo.

— Ah… E o celular, você viu os modelos em alguma loja?

— Nossa, verdade! Eu fiquei tão preocupada com o trabalho que nem lembrei…

— Só você mesma, não? Veja amanhã, depois da escola.

Amanda sorri, vai para o quarto dela. E eu continuo com meu trabalho. Após algumas horas termino e vou ajudar ela a arrumar a casa. Toca o celular e ela atende.

— Oi amor. O quê? Mas tá tudo bem com você? E como você vai voltar? Quer que eu vá buscar? Mas eu vou bem. Tem certeza? Tá, você que sabe. Tchau, beijos.

— O que aconteceu?

— O carro do seu pai deu problema na estrada, então ele numa deixou em um oficina lá em Andradina. Ele disse que vai ficar num hotel essa noite para ficar de olho porque o mecânico disse que era algo simples e que amanhã até o almoço fica pronto e que é mais fácil pra ele ficar lá pra ir trabalhar, pra eu não ter que pegar estrada antes ir trabalhar amanhã.

— Puxa… Ele vai deixar a gente sozinha?

— Mas pensa filha, pelo menos não aconteceu nada com ele. Ainda bem que foi só o carro.

— Credo mãe, vira essa boca pra lá!

— Eu só estou falando a verdade. Pegar a estrada todos os dias é perigoso.

— Você tem razão. Melhor ele descansar lá…

Jantamos juntas, arrumamos a louça, assistimos TV, conversamos, rimos, falamos de tudo que aconteceu no trabalho na escola. Vou dormir porque amanhã é outro dia.

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