Capítulo 09 – Dois corações #secret

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Chego em casa, tudo fechado. Abro a porta e em cima da mesa apenas um bilhete. Querida, deixei a comida pronta, tem suco na geladeira. Aproveitei o horário do almoço para pagar as contas e volto somente a tarde. Se precisar sair com as amigas deixei alguns trocados em cima do seu criado-mudo. Com amor, Mamãe!

Acho que hoje almoço sozinha, mas não posso reclamar, afinal Amanda se vira como pode para cuidar de mim e da casa toda, além de trabalhar fora. Que mulher!

Pouco depois de almoçar, fico brincando com a Nana até que escuto me chamarem. É Melissa, que dessa vez está com Luigi. Enquanto ele sorri ela começa a falar bem alto como sempre

— Oi La, tudo bem?

— Tudo e vocês?

— Tudo também. Você quer ir à escola com a gente?

— Como assim? A gente já não foi?

— Não é para estudar. É para ajudar.

— Ajudar no quê?

—  Preparativos para a Semana Cultural!

— Ah…. Ouvi falar que o pessoal do Grêmio ia cuidar disso. Eles pediram ajuda?

— A gente tá pedindo agora.

— Não. Espera um pouco. Vocês estão no grêmio?

— Desculpa, acho que a gente esqueceu de contar…

Mas você, hein Melissa! Vou te contar viu… Tá eu só vou trocar de roupa e já volto.

Pego a mochila, o dinheiro que Amanda deixou. Fecho bem a casa e começo a acompanhar eles.

Luigi tenta puxar assunto:

— O que caiu na prova hoje?

— Umas vinte perguntas.

— Tava difícil?

— Não sei, a gente preferiu tentar o enigma.

— Vocês estavam com preguiça de fazer? (Ele caçoa da gente).

— Nada, eu até que cheguei bem perto!

— Pode falar a verdade. Luigi, ela acertou!

— Sério?

— Sim.

— Não, gente, não valeu. Eu não achei a explicação.

— Mas você descobriu a palavra e é isso que importa!

— Ah, mas tive que pedir pro Hudson me explicar, que adianta?

Chegamos à escola. Pedimos licença na secretaria. A moça cumprimenta Melissa e Luigi, mas fica me olhando sério. Melissa resolve tudo bem rápido:

— Ela veio ajudar a gente.

— Tá. Vocês vão fazer o que hoje?

— Ajudar a professora Natália.

— Tá bom. Ela deve estar na sala de leitura.

— Obrigada!

Natália é a professora de Artes. Eu só tive uma aula com ela, mas sempre a vejo pelos corredores. Parece uma modelo, sempre bem-vestida, de salto, usando acessórios como brincos, pulseiras ou correntes. Tudo na medida certa, sem faltar, nem exagerar. Uma elegância sem comparação.

A gente chega à sala e ela está com a professora da sala de leitura. Melissa toda barulhenta:

— Oi, meninas!

— Oi, amores. Tudo bem com vocês?

— Sim. A gente veio ajudar dona.

— Trouxeram reforço, é?

— Sim, essa é a Lavínea.

— Oi, eu sou a Tatiane. Já conhece a sala de leitura?

— Ainda não…

— Fique à vontade para olhar. Aquela é a professora Elizabeth, ela é a responsável no período da tarde. Eu normalmente fico de manhã, mas essa semana eu tô ajudando porque a gente vai ter uma apresentação de teatro.

— Que legal. Quem vai apresentar?

— O sexto ano. Eles estão vindo ensaiar de manhã. Mas ainda está faltando bastante coisa. Tem o cenário, os figurinos… Tá uma correria.

— A Lavínea pode ajudar com os figurinos! (Melissa fala sem pensar duas vezes, que raiva!).

— Então temos uma estilista, que chique!

— Ah, dona eu sei só um pouquinho, mas acho que posso ajudar.

— Toda ajuda é bem-vinda minha filha, principalmente quando se faz de coração.

Hora de pôr a mão na massa.

Não sei por onde começar então, aguardo as instruções das professoras. Natália puxa assunto comigo:

— É você que mudou faz pouco tempo?

— Sim, vim de São Paulo.

— Sampa, eu morava perto de lá. Eu era de Guarulhos. De onde você era?

— Ah, que legal eu era do Bela Vista. Faz tempo que você veio pra cá?

— Faz um ano. No começo era um tédio, porque lá eu estava acostumada com tudo perto de casa. Mas agora prefiro o sossego daqui.

— Por que você mudou?

— Porque meus pais são daqui e como eles já são de idade avançada fica mais fácil para cuidar deles. Tenho uma irmã mais velha, mas ela já é casada, então ela tem menos tempo que eu pra ajudar.

— Você é solteira prô?

— Sim, eu sou. (Responde toda corada)

De repente a sala começa a ficar mais cheia e ela corta a conversa.

— Desculpa a demora gente, o ônibus atrasou um pouco.

Fico em alerta.

— Melissa quem são eles? Você não disse nada que vinha mais gente!

— Você não perguntou. Eles também são do grêmio. O Fabrício é presidente ele tá no segundo ano, a Julie é a secretária tá no terceiro e o Alessandro, aquele de boné, é o tesoureiro, ele é do nono como a gente. E a Laura você já conhece, ela é oradora.

— E você e o Luigi o que fazem?

— O Luigi é o secretário de esporte e cultura eu sou a vice-presidente.

Natália então organiza tudo e separa a gente em dois grupos:

— Quem vai cuidar do cenário fica com a Tati. Quem for ajudar com os figurinos vem comigo.

— Posso ajudar nos figurinos?

— Claro mocinha, como quiser.

Luigi, Laura e Alessandro ficam com o cenário. Enquanto isso nós vamos para outra sala.  Natália pede para mim e Melissa pegarmos os materiais para os figurinos.

— E aí? O que achou dos meninos, Lá?

— Ah…. Até que são bem gatinhos… Com qual você tá ficando?

— Nenhum deles. Eu já gosto de outa pessoa.

— Tá bom, sei.

— É verdade.

— Quem é então?

— Eu só conto se você guardar segredo. Mas tem que guardar segredo mesmo. Principalmente do Luigi, tá ouvindo?

— Por quê? Ele é fofoqueiro?

— Não, não é isso. É que… Como te digo…

— Fala logo, vai.

— Tá. É o seguinte: eu gosto do Hudson.

— Deixa eu ver se eu entendi. O Luigi tem ciúmes de você?

— Não, de mim não, do Hudson.

— Eles são tão amigos assim?

— São amigos desde o primário. Pra ele o Hudson é muito mais que um amigo.

— Então você tem medo dele contar para o Hudson?

Melissa suspira, arruma a bandana no cabelo e conta:

— Não La. O problema é que a gente gosta da mesma pessoa então eu não posso contar pra ele, pelo menos não ainda.

— O Luigi gosta do Hudson?!

— Fala baixo menina!

— Desculpa. Nossa, eu até estava desconfiada, mas achei falta de educação perguntar. Mas por que você não pode contar pra ele?

— Porque ele me contou o segredo dele primeiro. Ele confia em mim e eu não quero deixá-lo triste.

— Então não acha melhor ele saber por você mesma do que por outra pessoa?

— Sim, mas ainda não tive coragem. Até porque ele está tentando contar para os pais dele sobre isso. Mas parece que o casamento dos pais dele também não está indo bem, então tá difícil pra ele também, entende? Ele já está numa situação complicada então virar concorrente dele vai ser injusto.

— E o Hudson? De quem ele gosta?

— Tá aí outro mistério. Ele não fala muito com as pessoas é meio tímido. O único com quem ele conversa bastante é o Richard. Porém é difícil entender aqueles dois. Eles até já brigaram de verdade algumas vezes na sala, mas sempre voltam a conversar.

Voltamos a sala. A tarde voou, mas conseguimos ter ideias para as fantasias e deixamos tudo bem adiantado. Hora de voltar pra casa.